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Achados da semana #4

Uma lista dos conteúdos que achei andado pela web, quarta edição

Uma lista dos conteúdos que achei andando pela web, quarta edição.

· 9 min de leitura

Bom… É fato que, desde a última lista dessa série, meses passaram, mas na minha defesa, o nome é “achados da semana”. Nada diz que será literal semanal, né? Espero que a desculpa tenha colado, obrigado.

Como sempre, teve espaço para música boa, e dessa vez fiz questão de colocar um baita filme que assisti a pouco e não deu pra deixar de por na lista. Mais que nunca, o que escolhi me faz lembrar a premissa dessa série: mostrar o que é possível descobrir pela internet, de não apenas criadores grandes, e que pode não ter aparecido no seu algoritmo regido pelas redes.

Série

Interface

O que é: Uma série de animação com um estilo único e narrativa surrealista.

No ano de 1934, um experimento conduzido pelos militares americanos faz com que um navio desapareça da Filadélfia e reapareça em Nova York. No entanto, os marinheiros a bordo não voltam os mesmos. Alguns acabam fundidos ao casco da embarcação, e um deles transcende seu estado de existência. Ele agora não apenas deixou de obedecer às leis da física como as conhecemos, mas também não depende mais da forma humana com a qual antes estava acostumado. A partir daquele dia, o mundo nunca mais seria o mesmo. Novas gerações passariam a experimentar a realidade de uma forma diferente.

A humanidade agora podia ver, de maneira mais explícita do que nunca, fenômenos antes considerados paranormais — e, com isso, uma nova tecnologia surge dessa fonte natural quase indistinguível da mágica e a poderosa Greetings Robotics, vendendo salvação aos governos sob esta nova era da humanidade.

A série se passa pelo menos 80 anos após o acidente militar e acompanha a jornada de Mischief, o marinheiro que transcendeu seu corpo no evento da Filadélfia, e de um homem que não fala, mas carrega um passado misterioso que colide com a vida do marinheiro. Ao longo da jornada, a série revela progressivamente o que aconteceu no evento do navio, quais são os objetivos da Greetings Robotics com seu projeto mais ambicioso, e o passado do homem misterioso.

Interface é uma websérie criada por umami, um artista canadense que não apenas produz as animações, mas também as trilhas sonoras dos episódios. Seu estilo é marcante, definido por traços digitais 2D grosseiros misturados com 3D e vídeos gravados, tudo composto numa uma atmosfera psicodélica e melancólica. Sua arte pode parecer simples, mas a eficácia com que ele conta uma história mostra o quanto seu estilo é intencional e habilidoso (e definitivamente nada fácil de dominar). A magia da sua narrativa está nas cenas contemplativas únicas que ele cria. Os episódios têm poucos diálogos, mas o que há neles traz profundidade e reflexão não apenas para a história, mas também para as mensagens sobre a nossa própria vida. Interface é uma história sobre um ser que experimenta uma transcendência humana forçada e fragmentada, cruzando o caminho de um homem que se recusa a morrer.

É, sem dúvida, uma série que vale a pena conferir. Exceto pelos episódios mais recentes (de um total de 21 disponíveis), a maioria tem cerca de 3 minutos — e provavelmente vai te deixar querendo ver mais. Se você gosta de Evangelion, há uma boa chance de gostar desta série também. Ela traz muitos conceitos surreais em sua representação de tecnologia, e sua mensagem acaba revelando que tudo sempre foi sobre a experiência humana — só que com alguns elementos de ficção científica.

Jogo de Tabuleiro e Construção de Mundo

Trench Crusade

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O que é: um jogo de guerra em miniatura / jogo de tabuleiro, com elementos de horror e história alternativa.

Imagine um mundo cuja história diverge da nossa em 1099, durante a Primeira Cruzada. Após capturarem Jerusalém, os templários descobrem um artefato demoníaco em cofres secretos, que os corrompe. Eles acabam abrindo um portal para o inferno, liberando forças demoníacas. Esse evento fica conhecido como A Primeira Heresia. Jerusalém é destruída, e o inferno começa a se misturar com o mundo mortal.

Agora, o mundo (em termos de lore) está no ano 1914, cerca de 800 anos após aquele cataclismo. O Oriente Médio, partes do Norte da África, Anatólia, Arábia, etc. caíram sob domínio demoníaco ou são zonas de conflito. O terreno é dominado por regiões devastadas pela guerra — trincheiras, terras de ninguém, combate constante. Imagine Warhammer 40k, mas com um toque gótico e de horror corporal. Há uma guerra perpétua entre os Fiéis (facções humanas de diferentes tradições religiosas e criações humanas) e os Hereges / demônios / corrompidos. A corrupção permeia tudo: o físico, o espiritual e o cultural.

O autor desse universo, Mike Franchina — que também trabalhou em projetos como Warhammer 40k, Path of Exile, Diablo IV e Magic: The Gathering — explora conceitos que chocam não só visualmente, mas também conceitualmente. Não é apenas uma guerra com armas: são trincheiras no estilo da Primeira Guerra Mundial, mas onde se enfrenta o sobrenatural e o oculto. O tom é grimdark, depressivo, com fortes elementos de horror religioso e corrupção teológica. Pense em horror corporal grotesco, ordens fanáticas, martírios e profecias.

A ambiguidade moral está presente em cada arte conceitual. Mesmo os “Fiéis” têm seus extremos fanáticos; há hereges que não são apenas “maus”, mas complexos. Armas brutais, modificações dolorosas e rituais sombrios lembram que, neste mundo, a guerra é a realidade — e suas leis são baseadas na sobrevivência através da violência, não importa de que lado você esteja.

E nem estou sugerindo que você jogue o jogo — eu mesmo não joguei. O projeto já vale apenas pela arte conceitual e pela construção de mundo. A história desse universo está sendo escrita pelos criadores neste momento.

Referências: Wargamer, Trench Crusade

Música

Book Club Radio

O que é: um coletivo local de Nova York que faz eventos de música e transmite na web seu manifesto único.

Um grupo de cinco amigos que se encontrava todo fim de semana decidiu gravar seus sets, inspirados nos canais favoritos do YouTube que assistiam. Os vídeos atraíram tanto público que o projeto cresceu e virou um coletivo de eventos, organizando festas intimistas com temas específicos, setlists bem curadas e, acima de tudo, um manifesto sobre como esse coletivo pode existir e crescer de forma saudável, cultivando a cultura rave e acolhendo novas pessoas nas festas.

  • Venha pela música
  • Esteja aberto a sons e músicas desconhecidos
  • Respeite uns aos outros
  • Olhe para as pessoas, não para o DJ
  • Sem celulares na pista de dança
  • Vista-se para se expressar
  • Dance de coração aberto

O canal no YouTube é cheio de temas e estilos musicais variados — de trance Y2K e EDM dos anos 2010 até batidas latinas e techno gótico pesado. Pode ser só uma questão de tempo até você assistir a um dos vídeos e, eventualmente (ou na real, agora mesmo), conhecer os outros sets completamente diferentes que eles tocam.

Referências: edm.com

Dengue Dengue Dengue

O que é: uma dupla de artistas de música eletrônica do Peru.

Essa dupla inicialmente chamou minha atenção pelas grandes máscaras exibidas nas thumbnails de suas performances ao vivo. Não demorou muito para eu ficar pela música. Dengue Dengue Dengue é formada pelos músicos e designers peruanos Rafael Pereira e Felipe Salmon, e o que eles fazem é explorar como ritmos latinos e afro-peruanos podem inspirar a música eletrônica psicodélica.

Usando máscaras vibrantes nas apresentações e tendo tanto cuidado visual quanto musical, a dupla cria batidas densas e profundas carregadas por percussões enraizadas na cumbia amazônica — também conhecida como cumbia psicodélica, subgênero nascido no Peru nos anos 60. Ela difere da cumbia colombiana por usar guitarra elétrica em vez de violão e acordeão, influência da era do rock peruano dos anos 60 e 70. Dengue Dengue Dengue é uma presença autêntica na cena eletrônica, definindo um estilo próprio que alguns já chamam de “future cumbia”.

Referências: univision, rpp

Filme

Milk & Serial

O que é: um filme de terror found footage (filmagem encontrada) que você pode assistir agora no YouTube.

Milk & Serial conta a história de dois influenciadores, Seven e Milk, donos de um canal de pegadinhas. A trama começa com Seven planejando, junto à equipe, uma pegadinha para o aniversário de Milk — uma brincadeira de péssimo gosto que já mostra o quão tóxica é a dinâmica deles em nome do conteúdo online. Depois dessa pegadinha, eventos estranhos começam a acontecer, e você perde a noção do que é real e do que é apenas mais uma brincadeira. Um vizinho estranho bate à porta reclamando do barulho da festa, entra sem permissão, e mesmo assim Milk não leva a situação a sério, enquanto todos os outros estão apavorados.

O filme é extremamente inteligente ao usar a narrativa do canal para encaixar o gênero found footage, sempre deixando uma crítica à vida de influenciador — especialmente quando os personagens perguntam “Você tá gravando?” ou “Por que você tá gravando?”, causando aquele desconforto de se perguntar se pode realmente confiar em alguém que pode explorar sua confiança por um conteúdo viral.

O filme é dirigido e produzido por Curry Barker, que também interpreta Milk. Ele e Cooper Tomlinson comandam o canal That’s a Bad Idea, de esquetes de comédia — que é também onde o filme está disponível. Se você assistir a algumas dessas esquetes, fica claro como eles são bons em criar um sentimento de desconforto em meio ao humor, e um toque cômico em seus filmes de terror. O filme vai muito além do que resumi aqui — e é tão bem estruturado que eu o consideraria um dos melhores found footages da atualidade. Ele é dinâmico na troca de ponto de vista, mas sempre coerente com a natureza do found footage — algo raro para o gênero. Então, espere ser surpreendido… ou seria melhor dizer, pregado uma peça? HAAA!

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